Relatos de uma navegante

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Postado por Vanessa Rodrigues em 18 de Fevereiro de 2010

igarapé

Sinais, pegadas, oxigénio, rastos na areia e em igarapés, chapinhar as impressões digitais no rio, ouvir uma nuvem. Reinvenções diárias sem azimute, contra o tempo, sem tempo: Sinais diários de SinaisDaGente.

24/10| Dia 68 Amanhecer em Santana do Ituqui, no rio Ituqui, afluente do Amazonas,no barco Netinho. A Secretaria Municipal de Saúde de Santarém dá assistência a estea comunidade ribeirinha com vacinas, testes de glicemia, odontologia, clínica-geral, ginecologia e pediatria. As crianças são quem mais precisam de assistência. Há muitas diarreias infantis. A comunidade tem acesso por terra, mas demora horas até Santarém. E depois, de barco, são pelo menos 6 horas de viagem nas melhores condições. Nas margens búfalos e jacarés…

Regresso a Santarém previsto para as 15h. O dia teria ainda uns quantos quilómetros de autocarro até Alter-do-chão. Procurar onde dormir seria um novo périplo de mochila às costas. Nada de novo! Vila da praia seria a pousadinha honesta e simples para os próximos dias. Ainda não o sabia, mas o muito trabalho a fazer, deixaria pouco tempo para procurar outro lugar onde dormir. Nada barato. Mas as opções não são fantásticas!  Só que o quarto de vila da praia traria, todos os dias, um companheiro de quarto diferente: aranhas, vespas, abelhas, mosquitos, baratas voadoras, mais baratas e, enfim, outros bichos e casulos no tecto que não conseguimos descobrir o nome.

23/10| Dia 67 Último dia no Abaré. Cheira a missão cumprida pela equipa do Saúde e Alegria. Quem terminou mais cedo já abandonou o barco – mortinhos por chegar a casa. 10 dias de barco, num frenesim de acordar cedo, levantar tarde, sair de voadeira, trabalhar sob um calor imenso, sol tórrido…

Saio só à noitinha, já em Santarém, e embarco para o barco Netinho da Secretaria Municipal de Saúde de Santarém com o Cana, que é o comandante do barco, e andou a rodar também o Tapajós a bordo do Abaré. A noite teria rede a balançar, jacarés nas margens e um vento ameno para atenuar o calor.

22/10| Dia 66 Anumã, Carão, Santi e Curipatá, Maripará

A noite foi passada em branco. Um–sai-e-entra-pessoal do camarote: beber água, WC, calor, beber água, WC, calor, refrescar, WC, beber água, mosquitos. As paredes do corredor escureceram, os mosquitos (de todos os feitios e tamanhos) preenchem o branco, deixando um manto picotado, como se tivessem sido colados simetricamente. O chão do WC está igual. Exercício: “ignorar-e-esquecer-que-é-isto-que-estamos-a-ver. O ar-condicionado hibernou. Está um calor infernal, que desperta o corpo empapado de suor. São 4h e a melhor solução é tomar um banho de água fria. Seja. Mais umas reviravoltas na cama. E o sono é imenso, só que mal adormeço o calor acorda, os mosquitos zumbem, picam,mergulham na pele empapada em festa, despertam; a sede angustia. E suspeito de uma pequena infecção. Arde. O calor tudo amplia no corpo. 6h da matina e desisto de dormir. Não tenho posição na cama. Tomo o pequeno-almoço. Estou ainda num barco-hospital, por isso, uma hora depois, a médica confirmaria a suspeita de infecção. Antibiótico, portanto, repouso e água para hidratar. Uns minutos na sala de repouso do barco hospital seriam o suficiente para perceber a importância do barco Abaré nas comunidades. Um bebé de 9 meses chora ininterruptamente. A médica Dalila entra preocupada. “Há quanto tempo ele está vomitando?”; “Quantas vezes ele já vomitou hoje?”; Há quantos dias está de diarreia?”. A mãe vai respondendo às perguntas. A médica diz que é para actuar de imediato, pois o bebé está “muito desidratado”. As diarreias infantis ainda são uma constante nesta região amazónica. O barco Abaré (que em língua indígena tupi-guarani significa “homem que recebe”=AMIGO) do Projeto Saúde e Alegria, numa parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Santarém, reduziu significativamente as diarreias com acções de consciência de higiene e educação nas comunidades, como por exemplo, ensinar a lavar os alimentos crus com cloro, e pôr hipoclorito na água. Há até uma música do Gran Circo Mocorongo, da área Educom do PSA, que ensina os procedimentos correctos: “Eu bebooo, água, com hipoclorito, duas gotas por litro, meia hora depoiiiiisssss”. Estou preparada para sair, depois de levar com “buscopan” na veia para aliviar a dor e um antibiótico por 14 dias, a médica muda-me os planos: repouso, e muita água. Dá vontade de desobedecer, porque as dores aliviaram, a praia incrível está aqui ao lado e há uma nova comunidade ribeirinha a visitar. Vou perder isto? A desobediência não é boa conselheira. Aproveita-se para actualizar os sinais diários.

21/10| Dia 65 Capixauã, Vila do Capixauã, Solimões, Pedra Branca

O dia seria mais lento e pausado. A azáfama do início da viagem já não se sente. São as últimas comunidades a serem atendidas, por isso, a equipa está mais relaxada. São menos pessoas, e o descanso merecido está a dois dias de distância. Converso com a Marcela Pinheiro, enfermeira-chefe e coordenadora do PSA no Navio-Hospital, que tirou dois anos de licença da Secretaria Municipal de Saúde, para trabalhar com o projecto. Fala das crianças desnutridas (muito abaixo do peso), dos problemas do planeamento familiar. O PSA está a preparar um projecto especial para as crianças de baixo peso.

20/10| Dia 64 (Cabo do Ukena, Maripi, Suruacá) Suruacá

Pontualmente a rádio anuncia que é o “grande dia”. 6h da manhã e haverá festa, a partir das 8h, no Telecentro. É o “grande dia”, ecoa. “Acorda Suruacá”, ouve-se. A Laura acordou ainda mais cedo. A rádio, o desconforto da rede, o barulho, as gentes que vão chegando a casa do Marilson são despertadores e motivos suficientes para que encare o banho e o pequeno-almoço. Magnólio chega com Chico Malta. De novo aqueles bolinhos de trigo deliciosos e o café. Repito a gula. O Magnólio tem a voz rouca, irritante. Mas tem genialidade na alma. Brinca com as crianças da casa, espontaneamente. Depois diz para a pequena do Marilson e da Laura: “Vai ver se o Luciano Huck já chegou. Se a festa já começou”. E remata: “Numa comunidade assim, onde não há telefone celular, há o telefone molecular”. Não entendo e ele reformula: “Então se não há celular, você manda lá o moleque ou a ‘moleca’ para saber ou avisar: telefone molecular, personalizado, mais barato e até, mais rápido, às vezes”. Risota total. Magnólia fala dos tempos em que conheceu a comunidade, como era. Preparamo-nos para sair. Vou-me mascarar de oncinha. O pessoal do circo está quase pronto. As bandeiras estão montadas. As cortinas, também. O Tucupi pinta-me a cara de onça. E, às 8h30, está tudo pronto para a festa. Mas nem sinais de Luciano Huck e da família chique de São Paulo, ou sequer da produção. A espera, prolongar-se-ia por mais de três horas, só possível graças à criatividade, ao improviso e espontaneidade do Circo Mocorongo sobretudo a combinação Pimenta-Magnólio- Tucupi e Chico-Malta que entretiveram a criançada e os mais velhos. Depois, começaram as apresentações porque já mais ninguém aguentava tanta espera e diz-que-disse. Que o Luciano Huck andava perto, que a tal família também, que a produção também. O que é certo é que ninguém via ninguém e começavam a ficar impacientes. E Luciano Huck não poderia ficar muito mais tempo em Suruacá. Só que a população tinha preparado tudo, com tanto carinho e apreço só para o receber. O privilegiado era ele, muito embora a comunidade acha-se sempre o contrário, já que seria “o acontecimento do ano”. Quase perto do meio-dia, a tal família apareceu, o Luciano Huck também e a comunidade entrou em histeria. Gritos, palmas, salvas e muitos flashes. Ele falou dois minutos à comunidade de Suruacá – que durante duas semanas não pensou noutra coisa, senão na festa de recepção para a estrela de TV- disse que era o lugar mais bonito do mundo (e que já tinha ido a muitos, mas ali era pois “o lugar”) – só que Huck não esteve mais de duas horas, chegou de jacto privado a Santarém, oriundo de São Paulo, horas antes, chegou a Suruacá de lancha pessoal, passou todo o tempo a gravar com a família e a ouvir os fundadores do PSA. A comunidade acreditou, mas eu não. É um lugar lindo sim. Só amarga que estas visitas fast-food, mediáticas, falsas, dêem em segundos a percepção para lá das câmaras aquilo que é tudo fabricado. Por isso, soou tudo falso. E percebi por que é que ontem me tinha sentido profundamente triste. Os privilegiados somos nós por aqui vir, aqui poder estar, dormir, sentir, ser acolhido, ter uma preparação de boas vindas. Quem visse, depois o programa, vê uma Amazónia estereotipada, mais uma vez, falsa, e fast-food, imposta pelo tempo da TV. O mais importante, na verdade, foram as horas de espera pela estrela de televisão em que Pimenta-Magnólio- Tucupi e Chico-Malta estiveram por ali a envolver a comunidade. Mas do que eles se vão lembrar são dos dois minutos de Huck.

Terminado o espectáculo. Tirei o fato de onça, a maquilhagem e fui almoçar com o Pedro e a Macaxeira a casa da Dona Martinha. Descanso na rede, depois e histórias de lendas da comunidade. Houve uma vez, conta-me, que duas crianças se perderam na floresta. Passaram dias a dormir na selva. A ouvir aqueles bichos. Já ninguém achava que fosse encontrados com vida. Até que alguém disse que eles ainda estavam vivos e que estavam à espera de ser encontrados, mas que ainda ia demorar mais dois dias. Mandaram vários homens da comunidade, armados e com mantimentos para aguentarem a selva. Dois dias depois encontraram os miúdos vivos. Acanhados, escanzelados, mas vivos.

Depois contou a história do Curupira (figura do folclore brasileiro: anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás), que protege a floresta, mas também que judia dos homens na mata: dá-lhes pontapés, assobia para os assustar e distrair. Houve ainda tempo para a lenda do boto encantado, que seduz as mulheres. Quando começou a deixar de ouvir o barulho do Abaré, a dona Martinha assustou-se e disse-me: “É melhor você ir embora, porque o Abaré está saindo”. Corri o mais que pude. O Pedro já tinha saído. Ainda passei em casa do Marilson para ir buscar a mochila, mas o Pedro já tinha levado tudo. Corri para a margem e o Abaré já ia longe. “Será que fiquei em terra?”, pensei. Respirei fundo e achei melhor divertir-me com a situação. Nada de mal poderia acontecer. E caso quisesse voltar para Santarém, teria um barco de linha no dia seguinte. Depois pensei se ainda haveria ribeirinhos no navio-hospital a ser atendidos. Esperei. Encontrei o Marilson logo nas escadas que me começou a gozar por ter ficado em terra. “Agora você vai ter de ficar com a gente, viu? Não tem como voltar”, gracejamos. Perguntei-lhe se podia gravar uma entrevista com ele. Quanto ao Abaré não podia fazer mais nada. Estava sozinha em Suruacá e caso as voadeiras ainda voltassem para deixar gente, teria de esperar. Converso com o Marilson. Meia hora depois o Tapajós chega com oas últimos comunitários atendidos no navio-hospital. Foi a minha salvação. Volto para o Abaré.

19/10| Dia 63 (Ens. De Amorim e Vila de Amorim) Suruacá

Ás 6h a rádio de Suruacá acorda a comunidade com as novidades do dia. A luz ainda é tímida, por isso encolho-me na rede. Tive frio durante a noite e o corpo está a queixar-se. Começam a chegar algumas pessoas para tomar banho em casa do Marilson. Um burburinho, cochichos e vozes cada vez mais altas. Enrosco-me mais um pouco na tentativa de adormecer só mais uns minutos. Os pés gelados e o barulho de gente desperta. Saio da rede. O WC está ocupado. Laura, a mulher de Marilson está na cozinha a preparar o pequeno-almoço. É professora primária. Tem um cabelo negro, liso, que lhe bate nos ombros, e uma delicadeza feminina, materna, que lhe esconde a idade. Tem 33 anos. é muito nova. Conheceu Marilson muito nova, ali na comunidade, e nunca mais se separaram. Têm duas filhas. O irmão de Marilson, de 13 anos, também mora com eles. Foi ele que me assustou, sem querer e saber, ontem à noite, quando se deitou na rede do lado. Vi um vulto rápido, que se enrodilhou na rede. Já cheira a café. Laura preparou bolinhos de farinha de trigo fritos para barrar a manteiga, tapioca e pôs no prato as tucumã, (fruto de palmeira, da qual se faz vinho, também). Café com bolos de trigo e tapioca feitos pelas mãos de Laura é manjar dos deuses. Um privilégio no meio da Amazónia. Começam a chegar mais pessoas para o pequeno-almoço. Vou ao banho. Depois, toda a gente da casa já saiu. As portas ficam abertas. As redes de dormir foram recolhidas. Os jogos da escola já começaram. Há reunião no Telecentro entre o Circo Mocorongo e a comunidade para acertar os pormenores do alinhamento do espectáculo de amanhã. Haverá dança de crianças, intercalado com a dança da Macaxeira Jackson, Poesia, cantares locais. A comunidade está excitada com o facto de receberem o Luciano Huck: “uma celebridade”. Para eles, dizem, é “um privilégio” receê-lo. Para eles, dizem, é o “acontecimento do ano”. O sossego de Suruacá estremece para receber a celebridade. Há ninhos de japins nas árvores. Há japins a imitar japins. Há crianças a olhar os japins e a gargalharem, como gargalham as crianças felizes. Há pó no ar. Sol, muito, e quente. Há reunião no Telecentro. Um breve ensaio. Outro ensaio. Dou um passeio pela comunidade. O lixo industrial anda a fazer das suas por aqui. Com o “bolsa família”, conta-me o Pimenta, “as famílias começaram a saber o que era ter dinheiro e começaram a consumir o que, até então, não consumiam: bolachas industrias, pacotes de batatas fritas e refrigerantes”. Só que para onde vai esse lixo? “Ou queima-se, que também polui, ou enterra-se”, conta o Tucupi. “Há já quem plante e de repente encontra lixo”. Este começa a ser um grave problema nas comunidades ribeirinhas da Amazónia. Não há recolha de lixo. Nem soluções para o retirar ou reaproveitar nas comunidades. Estamos a falar de comunidades que estão a dias de distância de centros urbanos. Os rios e afluentes da Amazónia são autênticas veias sem fim e lentamente navegáveis. Em época de seca essa velocidade passam quase para o quádruplo, pois só pequenas embarcações conseguem chegar perto das margens. Há folhas de palmeira a secar. É delas que se fazem os tectos das casas. Galinhas de um lado para o outro. Bicicletas. Vamos almoçar a casa do Marilson. O irmão mais velho dele preparou-nos um peixe delicioso, com farinha de mandioca e arroz. A familia do Marilson está muito quieta e não toca na comida. Só depois percebemos que eles, como anfirtriãos, estão à espera que terminemos para comer. De imediato, revertemos a situação para que nos façam companhia. Só assim faz sentido. Negam-se prontamente, porque “convidado é convidado”. A tarde passa lenta com mais ensaios para o show de amanhã e passeatas pela comunidade. Casas de madeira, algumas em tijolo, do INCRA. A casa do Marilson e da Laura tem uma garrafa de plástico no tecto. “Tirei uma telha, porque tornava a casa mais escura. Assim, com a garrafa transparente, temos mais luz durante o dia”.

No centro da comunidade apetece uma geladinha ao fim do dia. Hoje só há cerveja gelada na casa da Marilena. As outras casas, que vendem cerveja, não têm gelo. Só a Marilena tem uma arca com gelo que aguenta mais tempo ao calor infernal do médio amazonas. Quando a luz vem à noite, do gerador comunitário, ela aproveita para gelar um pouco mais os cubos de gelo que manda comprar, em Santarém. O barco sai à quarta-feira e chega a Suruacá à sexta. O gelo só aguenta até Domingo, quando há muita “demanda”. Um saco de gelo custa 7 reais. Cada garrafa de cerveja custa $. 2,50. A comunidade vive, essencialmente, de subsistência. O pouco dinheiro que circula vem do bolsa família, de biscates que cada um faz aqui e ali. Ter dinheiro para cigarros e cerveja é o básico. Comem o que caçam e plantam. Ainda que a cultura da roça esteja a ser já negligenciada. O marido da Marilena, com 5 filhos, caça cotia, tatu, veado e peixe. Além da mandioca, plantam Cará – uma espécie de batata. “É difícil criar cinco filhos numa comunidade sem condições. A vida correr, mas é muito difícil, desabafa”. A pequerrucha que está no colo dela chama-se Marisol. É a mais recente herdeira, com um ano, desta mulher de 31. Marisol nasceu no meio do rio Tapajós. “Estava na ambulancha e já não deu tempo de chegar à cidade. Parece que estava escrito: já lhe tínhamos escolhido o nome, mas ela nasceu mesmo sob um imenso Sol e num rio que parece mar”. Valeu-lhe a parteira Maria Lúcia que a acompanhava na viagem. Há homens a jogar futebol. Em todas as comunidades não falta um campo, por mais pobre que seja. Marilena conta que na comunidade também há um clube de mulheres que jogam futebol: “Norte Brasil Esporte Clube”. Admite que eles jogam melhor que as mulheres, mas que elas também são craques. Os treinos não são frequente, mas dá para a “diversão”. Começa a anoitecer. Aparece o Magnólio (palhaço da velha guarda do PSA, advogado e um dos coordenadores do projecto) com o Pimenta. Juntamos mais algumas geladinhas. Hoje o jantar será servido na Dona Martinha, a mãe do Marilson. Ás escuras e apalpadelas conseguimos encontrar a casa da dona Martinha. Peixe, muito, e farinha de mandioca. Já é noite cerrada. Ouvem-se histórias. O povo está entusiasmado com o dia de amanhã, por causa da estrela de televisão. Fico triste. Não sei porquê. Mas fico imensamente triste!

18/10| Dia 62 Parauá, Pajurá e Brinco das Moças, LimãoTuba e Cabo do Amorim

Manhã calma. Escritas em dia. Passa-se fotos para o computador. E começam os preparativos para a Festa em Surucuá. O pessoal do Circo Mocorongo anda agitado. A comunidade de Surucuá andará, mais ainda, imagino. O apresentador de televisão Luciano Huck vai estar presente nesse dia da apresentação, no dia 20. Isso por causa de reality show dentro do programa dele: O Caldeirão do Huck, que troca de contexto famílias brasileiras. Parece que uma família da Amazónia foi para São Paulo. Portanto a família de Sampa anda pela Amazónia – mas por uma Amazónia filtrada, claro. Esperemos pelo dia. A Macaxeira chama para o ensaio no último piso do navio-hospital (onde estão as redes e a roupa a secar) e ensaiamos o alinhamento do espectáculo: as brincadeiras, as deixas para um mundo melhor, a responsabilidade, do ambiente, as danças. Ficou tudo bem. Fim de tarde. O Tucupi e o Pimenta vão até à comunidade. Irei com eles. Há jogo de futebol entre os comunitários e o pessoal do Abaré. O Tucupi mostra-me breu branco: essa resina cheirosa que é calmante e repelente ao mesmo tempo, e que nasce no cerne das árvores. Voltamos à comunidade para a geladinha essencial. À noite o rebuliço (muvuca) começou depois de jantar. É preciso levar material para Surucuá, onde será o espectáculo daqui a dois dias. Estou convocada para os ensaios. Logo, tenho de ir à noite, na lancha com o pessoal e deixar o Abaré. Material de circo, mochila básica para dois dias, material fotográfico. Seriam 3 horas de viagem, com jantar mal engolido, sem lua (a Lua Nova) e com um capitão inexperientes nas margens do Tapajós, parando de tempos em tempos, porque as margens traiçoeiras começam a cercar-nos. Por isso demorámos mais tempo. Horas depois reconhece-se a margem de Surucuá (pormenor: não há placas a dizer onde estamos, está noite cerrada, não se vê nada, a não ser a luz que o barco lança à margem e temos de subir um bom lance de escadas). Temos de atravessar o rio, pois a lancha não consegue chegar até à margem. Corre o risco de encalhar. Em linha de montagem passamos o material uns aos outros. Subimos as escadas. Vamos passando o que podemos. Depois começam a chegar os comunitários. De repente, numa corrente solidária começam a perguntar quem fica em casa de quem. Marilson, o líder da comunidade oferece a varanda dele, onde montaremos as redes. As crianças ainda brincam, sob a luz comunitárias de gerador, que dali a meia hora se desligará. Há ensaio para os jogos entre equipas da mesma turma. Desporto, canto, danças e representações. Eles são da equipa azul: mas há a vermelha, a verde e a amarela. Montamos as redes. Há osgas em todas as paredes, Aranhas. Ouve-se passos, mas é apenas um leve rastejar de alguma coisa. Ponho repelente pelo corpo todo. Encolho-me na rede e não quero saber de bichos. Digo-lhes boa noite.

17/10| Dia 61 Paricatuba, Muratuba, Suruacá

Pequeno-Almoço no Abaré. Sol quente, iluminador. Banho rápido. Máquina fotográfica a carregar. Máquina de filmar a carregar. Folheio os jornais da Rede Mocorongo do PSA.  O Pimenta dá-me uma dica: “A comunidade de Muratuba tem um projecto de jornal muito bem feito. Você tem que ver”. Não hesito. Peço boleia na voadeira com o China que me leva até à margem. Há muitos gafanhotos, ainda, na praia. E outros tantos nas paredes da escola de Muratuba. O Emanuel está a limpar as folhas secas para queimar. É uma forma de manter a comunidade limpa. Tronco nu, suado. Indica-me o telecentro e que dali a nada também vai lá ter para me contar como é coordenar um jornal na comunidade, a rádio e ainda ser líder dos jovens da comunidade.

Muratuba é uma comunidade mais desenvolvida no Médio Amazonas, tal como Suruacá. O telecentro onde está Rosivete é uma espécie de centro tecnológico, feito com o apoio do Saúde e Alegria. Tem internet, telefone, biblioteca, e funciona como ponto central de encontro. Converso com a Rosivete, responsável pelo telecentro, que me fala de um jornal comunitária, onde escrevem sobre as actividades, as lendas, a culinária. Fala-me que a comunidade já nem tem curandeiros, mas que a pajelança já se foi: tratam de “dores de cabeça”, por exemplo. “Antes nem procurávamos médicos, pois confiávamos muito neles, mas os nossos curandeiros já não existem”, conta. Muratuba, com cerca de 300 habitantes, também é uma comunidade indígena. Melhor: descendentes das tribos “Cara Preta” e “Tupinambá”: uma mistura das gerações da época. Mas as festas que se celebram são, sobretudo, religiosas. “Temos ainda alguns festejos, como a festa do mastro e do preto, que é a única forma de resgatarmos a nossa tradição”. Rosivete fala ainda da dança da quebra da macaxeira, da cultura da mandioca e do tarubá – elementos comuns a todas as comunidades do médio Amazonas. O Emanuel chega, o senhor José dos Anjos, também, ele que é o coordenador da comunidade. Falam-me dos problemas, da comunidade e da família. Uma hora depois volto para o Abaré.

16/10| Dia 60 Jatequara, Juarituba, Santo Amaro, Mirixituba e Vista Alegre do Murataba.

O corpo está cansado. O calor é infernal e o pequeno-almoço, hoje, está quase acabar. Chego em cima da hora (7h10). A caminhada de ontem à noite deixou mazelas. Abacaxi, sumo de laranja, pão com queijo e fiambre e café para acordar. Haverá atendimentos nas comunidades de Jatequara, Juarituba, Santo Amaro, Mirixituba e Vista Alegre do Muratuba. Os mesmos problemas: diarreias, muitas, sobretudo em crianças, desidratação; planeamento familiar  – que veio ajudar as famílias a “perceber” que há anticoncepcionais e que não precisam de ter tantos filhos, porém, ainda é um trabalho árduo, sobretudo de “educação de mentalidades”, conta-me a enfermeira Josiane Sousa, da Secretaria Municipal de Saúde do Programa de Agentes comunitários de saúde, em parceria com o Projeto Saúde e Alegria. Há homens que se recusam, ainda, a usar preservativo. Chegam a bater nas mulheres e a intimidá-las caso toquem no assunto. E elas, não querem usar a pílula, apesar da informação.

Segundo Josi, o projecto traz para todos os ribeirinhos uma saúde de “qualidade”. “Atendemos mais de oito mil pessoas com consultas odontológicas, de enfermagem, numa lógica de prevenção, sobretudo para as mulheres”. Depois, atenta: Imagina a importância de um hospital no meio da floresta amazónica, com uma qualidade que você não tem sequer em Santarém”. Josiane conta-me ainda que as pessoas sentem-se “gratas”, pelo trabalho desenvolvido pelo Saúde e Alegria. “Temos uma relação muito estreita com a população.”

A meio da tarde subo até à comunidade de Mirixituba. Escadas íngremes. Um desafio para quem tem vertigens. Agarro-me muito à encosta e inclino o corpo para a frente para não cair. Seguro na câmara fotográfica. Vou até à escola. Lá o Pimenta afia lápis de cor para as crianças. O Ruivan fala sobre saúde bocal. Cheira a chocolate quente.

Encontro o cacique Evanildo, 51 anos, pai de 11 filhos. descendente indígena dos Tupimambá. Olhos fundos, de azul-cinza, cabelo negro. Conta-me que o nome da comunidade Mirixituba deve-se ao facto de antes ter havido, ali, um mirixizal (árvore de fruto do mirixi – o mesmo que murici) enorme. Agora nem tanto. Já nem há mirixizal. Em Mirixituba tem apenas 22 anos e há cerca de 17 famílias, actualmente – 163 pessoas. Apesar de serem descendentes dos Tupinambá, já não têm quaisquer festas culturais de referência. As únicas são as religiosas, com a da Nossa Senhora da Saúde, em Janeiro. Evanildo contou-me que, às vezes, cantam e dançam músicas tradicionais, mas ele próprio, nem se lembra bem das músicas. Só se lembra da do Tupã (na mitologia dos indígenas de língua tupi, o trovão, cultuado como divindade suprema) e canta um pouco. Nos dias de festas, descreve fazem uma “grande festa”, com “comes e bebes” e fazem o “tarubá” – bebida que os índios das margens do Tocantins fazem da mandioca ralada. Come-se carne assada (de veado e paca) e peixe assado (tucunaré); o chá tapinarim, beiju de água (feito de mandioca) e o tacacá (caldo feito com a goma da mandioca, camarões e tucupi e temperado com alho, sal e pimenta, a que se adiciona jambu, erva com a propriedade de provocar sensação de formigamento na boca). Evanildo explica-me que precisam de escadas novas para acesso à comunidade e de uma escola nova. A comunidade está a fazer um levantamento das crianças da comunidade para solicitar à prefeitura apoio. Depois, a saúde. O problema, sempre, da saúde para estas comunidades remotas, com tanta água a separar do que parece ser tão básico e de direito. Mas aqui não o é. “Ela é um pouco precária, para nós”, diz. O Abaré alivia-nos muito, pois veio fazer um bem para nós. Só que ainda não é suficiente. Precisamos de telefone. Quando há uma emergência de saúde temos de ir de barco à comunidade vizinha, a duas horas de viagem de barco, para conseguir avisar, por telefone, que estamos tendo um problema e chamar a Ambulancha do Abaré, que sai de Santarém. É longe, mas eles têm quebrado o galho”. E com os bebés? “Nós temos uma parteira que faz o pré-natal, mas precisamos de encaminhar as moças para Santarém para ter os nenéns”. Depois explica-me a diferença entre cacique e tuxaua: “Cacique é o primeiro e o tuxaua vem depois. Eu reúno o povo e passo para o ele, depois, discutir com a comunidade”. E como se chega a cacique? “Pelos conhecimentos e pelo trabalho desenvolvido na comunidade.”

Foi o INCRA (Instituto de Nacional de Colonização e Reforma Agrária) que fez as casas: tijolo, caiadas de branco, telhas básicas e madeira, com o logótipo do INCRA, como se fosse um carimbo, por fora. Ao longo do médio amazonas vemos várias casas assim, substituindo as de madeira de outrora destes ribeirinhos. Despeço-me de Evanildo. A esposa dele está a chegar e ele faz questão de a apresentar para que ela não desconfio por que razão estava o seu marido, em casa, a conversar com uma estrangeira. Recebe-me com um sorriso. Vou ter com Ruivan e Pimenta à escola. O cheiro a chocolate quente é mais intenso. Vejo crianças que tomam conta de crianças. “Aqui [na Amazónia, como no interior do Brasil] é comum isto acontecer. Muitas delas até deixam de vir à escola para poder tomar conta dos irmãos mais novos”, afiança Ruivan. Descemos as escadas íngremes até à praia. O Abaré está ancorado. Está quase na hora de jantar. E o pôr-do-sol promete ser incrível, como ontem, em tons de azul dormente, no horizonte, mesclado com laranja-quente do astro rei. Há silhuetas ao fim do dia, formadas pela luz que se ausenta.

15/10| Dia 59 | Boim, Rosário, Pau da Letra, São Tomé, Jaca, Paranapixuna

Vila Boim terá festa, hoje, especialmente preparada para receber o Projeto Saúde e Alegria (PSA). 7h e já é tarde por aqui. A turma do Circo vai andar pela comunidade bem cedo. Só saltamos para terra às 9h, quando o Tapajós (não o rio que também o é, mas desta vez o nosso comandante da voadeira de mão na manete do motor, apelidado assim) nos deixa a três passos na água até à areia. A igreja está construída de lado para a água. Incomum. A maioria está de frente para a água. “Das três vezes que a ergueram de frente, a igreja rachou”, diz Ivan, técnico da Secretaria de Saúde de Santarém, que acompanha o PSA. Hoje de manhã a equipa roda Vila Boim com uma das missões do PSA: como a maioria dos cães das comunidades não são vacinados, contraem muitas doenças e passam-na para as crianças sobretudo, como a Leshmeniose, e para os mais velhos, e por isso têm de ser abatidos com a injecção letal. “É um problema complicado nestas comunidades, com condições primitivas de saúde, por isso é preciso abatê-los. A maioria está em estado muito avançado de doenças”, explica Ivan. “As comunidades não têm noção do quão grave é manter esses cães perto das crianças e até dentro de casa, acabam por se desleixar e há muitos casos de crianças que morrem, por causa dessas doenças que contraem dos animais”, continua. A “Rádio Interacção” começou a programação: avisa, através de megafones espalhados pela vila, que hoje, às 13h, haverá reunião em casa da dona Marlene para a criação do Conselho Local Integrado de Sáude, uma iniciativa monitorada pelo PSA para organizar as comunidades em acções locais para resolver, sobretudo, os problemas locais: violência doméstica, alcoolismo, falta de energia, acesso a saúde, ausência de autoridades policiais para manter a ordem, poluição sonora, lixo, gravidez na adolescência…

São quase 11h (não esquecer que aqui a jornada começa às 6h), voltamos para almoçar. O Grupo de circo Mocorongo vai voltar ao fim da tarde para organizar a festa. O “Cana” volta com a voadeira que se tinha perdido durante a noite. Está aliviado. Soltou-se do Abaré e foi arrastada pela corrente. Só perto da hora de almoço o “Cana” conseguiu encontrá-la. Há um motor que precisa de manutenção. Depois de almoço será prioridade.

Ainda há gafanhotos no último andar do Abaré. As fêmeas são maiores que os machos e comem-lhes a cabeça depois de acasalarem. Há pelo menos três no ritual “viúva negra”. Há outro que se acomodou a uma mola castanha que segura um lençol na corda balançada pelo vento. Com certeza achará difícil o acasalamento com esta parceira mais “insensível”. A sirene já soou. É hora de peixe, farofa, massa ou arroz, salada e “suco” de acerola. Depois de almoço o Abaré avança para a próxima comunidade. Vemos a palhaça Macaxeira ainda a circular no barco. Ás 16h haverá uma “voadeira” para nos levar até à Vila de Boim de novo. À hora marcada não haverá espaço na voadeira, pois o Tapajós, o marinheiro, leva pessoas da comunidade e técnicos de saúde até lá. Esperamos. A Macaxeira já seguiu. Esperamos! O Cana está livre. Conseguiu arranjar o motor e diz que nos leva lá. Vão três no barquinho, por isso ele acelera. Vai leve. Talvez demasiado para esta velocidade incrível. A voadeira sulca o rio como se desbravasse terra arenosa. A proa bate na onda e “splash”. Haveria vários “splashs” depois. E um quase banho real, com material fotográfico a afundar. Mas à última da hora conseguimos equilibrar-nos. “Vamos passar primeiro num lugar que quero mostrar”, diz o Cana. Pára num igarapé-segredo –nativo. Água morna, mangas a cair, areia branca, cor-de-farinha e a criançada a chapinhar e a mergulhar na água. Há pedaços de madeira ao redor. “Com as cheias do início do ano a ponte caiu e só sobraram esses pedaços”, diz Jaime, de 10 anos. Maio, Junho e Julho foram meses padrastos para várias regiões amazónicas, fustigando com a água casas, embarcações e limitando a subsistência das famílias. Cana está aborrecido: “Como assim não vão pular na água?”. Ele não avisou sobre o segredo. Não há biquíni e ainda temos o circo daqui a pouco. Roupa interior está, para já, fora de questão para o mergulho. Não é a hora e isso teria um propósito… Voltamos para os “splashs” no Tapajós, o rio. A reunião em casa da dona Marlene ainda prossegue. A comunidade está com dúvidas e com receio de assumir responsabilidades para criar um CLIDES. A conversa é monitorada pela equipa do Circo Mocorongo. Eles orientam as comunidades a conseguir encontrar um caminho que melhor se adapte às necessidades deles. Questionam problemas e quais as soluções que eles acham serem viáveis serem aplicadas localmente. “Não é um trabalho fácil”, confessa-me a Macaxeira, “pois ainda há muita falta de informação sobre os direitos que eles têm. O nosso trabalho não é suficiente. Eles têm de ter força de vontade e iniciativa. Têm de se mobilizar para reivindicar. Precisam organizar-se para resolver os problemas”. Na reunião há um senhor que não pára de falar. Diz que concorda com tudo e aponta o dedo para os mais novos que não se mobiliza. Acha mal. Diz que se pudesse o faria. Continua a falar em surdina, como se resmungasse. É altura de escolher os representantes do CLIS. Todos de acanham. Escondem-se. Mergulham num silêncio como se a ausência de movimentos os tornasse invisíveis aos olhos de quem está. Acabam por surgir dois nomes: Francitelma e o nome de um professor.

Dona Marlene diz que moram, habitualmente, na comunidade, mais de 500 pessoas. “Mas em Julho passa as mil pessoas, pois é altura das férias e muitos regressam à terra. Vêm de Belém, Santarém e Manaus, sobretudo”. Sobre o trabalho. “É muito difícil arranjar trabalho na região. A maioria teve de sair para essas cidades maiores e conseguir fazer dinheiro. Aqui não há nada”. A única forma de sair da comunidade é de barco. Santarém fica a mais de cinco horas de barco. A Macaxeira diz que, no geral, muitas comunidades desta região estão a deixar a roça e passam fome. Querem produtos industriais, escassos na região, e para os quais é preciso dinheiro. “Estão a abandonar a riqueza da terra que têm e a ficar sem nada. A perder as raízes e a percepção de que têm tudo o que precisam na terra: mandioca, manga, legumes, peixe, e outros frutos”, conta.

Depois da reunião o pessoal do Circo vai tomar banho no segredo que o Cana, horas antes, mostrara. Aquele igarapé maravilhosa, a uma hora de caminhada, com crianças a chapinhar na água, a comer mangas caídas das mangueiras e de água morna. Uma hora depois e caímos na água. Eu, sem biquini, apenas com a canga e roupa interior a servir de fato-de-banho na água morna. Minutos depois aparece mais gente do Abaré. O lugar é ideal para um intervalo de descanso. Começa a anoitecer. São horas de regressar á Vila, pois o Circo Mocorongo vai fazer uma apresentação e eu fui convocada para fazer da palhaça. Anoitece demasiado rápido. Ainda falta uma hora de caminhada pelo que começa já a ser breu. E electricidade por aqui é um luxo, apenas alimentado a geradores. Há barulhos estranhos vindos da mata. Leves rastejares de bichos que não vemos. Galhos secos que esmagamos com os pés e cujo som soa demasiado forte no silêncio enternecedor do fim de tarde e de pernas jovens a tentarem encontrar caminho pelo terreno arenoso que nos leva até à Vila. A fome começa a apertar e ainda conseguimos comprar numa loja que vende cerveja um pacote de batatas fritas rançosas – e que bem enganam o roncar do estômago. Com o corpo húmido do igarapé a fome torna-se secundária. Chegámos à vila perto da hora do espectáculo. Montámos palco. Visto o fato listrado de branco e vermelho, com umas calças largas por fora. O Pimenta faz-me uma maquilhagem básica. A partir de agora o meu silêncio de palhaça-mimo e brincadeiras com a criançada, tímida, para quem o Circo Mocorongo vem preencher um vazio lúdico. Na verdade para todos. A praça está cheia. Haverá electricidade até mais tarde do que é costume, por conta da festa, olhares atentos, gente sentada no chão, em cadeiras improvisadas e olhos brilhantes. Aqui os olhares estão carregados de uma certa ingenuidade dos vícios do mundo. As piadas rápidas, que qualquer de nós, urbano, acharia a maior idiotice, são saciadoras de uma gargalhada sincera e desconcertante, como se o mundo fosse isto, aqui e único. Canto, danço, brinco com as crianças, abraço, caio ao chão, borrato a maquilhagem e percebo o privilégio que é estar aqui, no médio Amazonas, a brincar de palhaça, para olhares mais sinceros que o meu.

Depois do espectáculo o Pimenta e o Tucupi desafiam para uma cerveja, como forma de prolongar o convívio com a comunidade. “Eles preparam uma festa para nos receber. Não podemos ir já embora”. Algum pessoal do Abaré já está a ir embora de voadeira, até ao Navio. Se ficarmos, teremos de ir a pé, durante uma hora pela praia, para voltar ao barco. Mas ele tem razão. Às 22h em ponto, a luz que nos iluminava em plena praça de Vila Boim vai-se. A electricidade é racionada. Como a festa já acabou, e apesar de se ter prolongado a iluminação, é hora de desligar. Por isso, além de termos de caminhar uma hora pela praia cheia de sapos, gafanhotos, teremos de ir às escuras, porque ninguém se lembrou de trazer lanterna. O Tiago, que mora em Vila Boim, será a salvação, pelo menos até meio do caminho. Ficamos seis para trás: Pimenta, Rosa, Luciana, eu e o Pedro. Teremos de nos aviar com a luz ténue da lanterna do Tiago. Ele sugere levar-nos até ao barco. Demovemo-lo, pois além da uma hora que terá de galgar a praia connosco, terá de regressar outra hora sozinho. “Conheço isto como ninguém. Não há problema. Além de que aqui não há perigo de nada”, diz. Depois, graceja: “Os bichos que aqui andam a esta hora, eu conheço-os. Não me fazem mal”. Mesmo assim, combinamos que ele só nos leva até meio do caminho. Aquela luz ténue não parece o suficiente para iluminar tanta escuridão e orientar os olhos de todos nós. Terá de ser, pois é o que temos. As escadas da vila até à praia são íngremes, de tijolos despedaçados, sinuosas e não conseguimos ver onde pomos os pés. Abonaremos e abusaremos da sorte. Pisamos o lixo da praia e começamos a sentir no corpo descoberto (e este calor que ainda se sente, não pede nada mais) a ser roçado, levemente, por “coisas grossas”. “São gafanhotos”, diz Tiago. “Ou sapos”, remata. E aponta para a areia onde vemos um emaranhado de paus, sapos grandes a saltitar de um lado para o outro e alguns gafonhotos. Ninguém diz nada. Eu penso que não vale a pena pensar nisso. Esses bichos não fazem mal. Apenas mete alguma impressão percebê-los a roçar-nos a pele.

Não vê nada. Apenas a luz da lanterna do Tiago. Se olharmos com atenção para a curva da costa ao fundo vemos uma outra pequena luz a cintilar. É o Abaré. Está tão longe. E aquela luz orientadora, estaria longe ainda por muito mais tempo. Acho que levamos bem mais de uma hora para lá chegar. Sobretudo depois de nos termos despedido do Tiago, e da luz que nos guiava, a meio da viagem, ainda. E ele deixou-nos no igarapé. Teríamos de atravessar o igarapé, à noite, sem luz. O Tiago ainda tentou iluminar alguma coisa, mas sem sucesso. Eu só pensava na mochila com o material fotográfico, às costas. “Será que a água chegaria, no máximo, até aos joelhos e pouparia a mochila com o material?” Ainda por cima, sem ver nada, seria difícil saber onde colocaria os pés e se o solo seria movediço. O Pedro acabou por comprovar, que na margem do igarapé, os pés enterravam-se facilmente até aos tornozelos, o que significaria ficar sem chinelos. Foi – quase – o que lhe aconteceu. Não fosse a luz ténue, ainda, do Tiago, e a destreza de enfiar as mãos naquela terra mole. As havaianas estavam completamente enterradas. Recuperadas, atravessamos o igarapé à confiança. Não tinha quase correnteza alguma e a água dava pela, levemente, pela cintura. A partir dali estavamos, oficialmente sem luz, e o Abaré continuava, ainda, longe-longe-longe. O estômago roncava de fome, cansaço e sede. E os olhos queixavam-se que não viam com aquele breu. O Tucupi lembrou-se dos tempos em que trabalhou como guia de ecoturismo na Floresta Nacional do Tapajós. “Os caboclos identificam tudo, a qualquer hora do dia, mesmo sem luz”, contou. Quando chegamos ao Abaré já passava da meia-noite, extenuados. Encontraríamos um baile de mosquitos no corredor branco, que agora estava negro de tanta festa.

14/10| Dia 58 (comunidades: Samaúma, Nova Vista, Nuquini, Tucumatuba) 7horas. O pequeno-almoço serve-se até às 7h15 no barco Abaré. O barco-hospital acorda já em Samaúma e às 8h começam a chegar os primeiros pacientes: vêm na ambulancha e nas voadeiras. Aportamos em Nova Vista.

Os palhaços Pimenta e Tucupi já saíram para a comunidade. Hoje há festa por lá. Desta vez não vão fazer a Caravana Educativa, só as “palhaçadas” básicas (têm doutoramento em Besteirologia – essa ciência de fazer “besteiras” aproveitando o que de melhor têm as crianças: espontaneidade, sem os vícios do tempo e os julgamentos da interpretação. A rir fala-se de coisas sérias: como lavar os dentes, evitar doenças e contaminações…). O Abaré deixa Nova Vista para andar mais um pouco para a próxima comunidade onde passaremos a noite.

Às 16h voltamos de “voadeira” pelo Tapajós até à comunidade de Nova Vista. O Circo vai fazer parte das festividades de São Raimundo Nonato. Até lá galgamos o rio ao redor de uma paisagem incrível: areal ao fundo, água verde-azuladas (a pequena espuma ao longe é dos botos que brincam na água) e vegetação baixa. Do outro lado da margem já é a Reserva Nacional Extrativista do Tapajós. O motor fica mais fraco, chegamos à praia, saltamos para água quente do rio (prescrição para interpretar estas últimas palavras: imaginar chá que começa a ficar morno). Uma dúzia de passos depois sob a areia e chegamos ao centro cultural, onde dezenas de crianças espreitam pelas portas e nas janelas. Antes Um miúdo veio a correr gritando: “Tucupi!; Tucupi!”…

Teatro com lendas e histórias regionais, palhaçadas e dança. Meia hora depois a criançada já pede para ser fotografada e quer logo ver o resultado: primos, amigos dos amigos, mães, filhas, avós, namorados… Querem ser fotografados! Voltamos minutos antes de escurecer ao Abaré. Pelo caminho, de voadeira, desde a praia (a água agora já passou à categoria de caldo) a malta do Gran Circo Mocorongo canta e toca músicas regionais e algumas inventadas pelo PSA, para passar mensagens de higiene e saúde bucal. Tucupi na voz e no batuque; Macaxeira e Adhara na voz e nas palmas; Pimenta do “xeque-xeque” – uma cabaça com contas de plástico ao redor que fazem um som mais ampliado que chocalhos. As margens quase não se vêem: só o Abaré ao fundo, e um foco de fogo ao longe, do lado direito. Imaginem o que é andar pelo Tapajós ao fim do dia, com o som do motor do barco, água a ser galgada e um grupo de circo a cantar músicas regionais. Não estão sequer perto. Voltamos a bordo e é hora de jantar. O Brasil já está a jogar com a Venezuela. Sabemos que Portugal ganhou a Malta.

Estômago saciado e olhar sereno para o último andar do barco, no redário. Começamos a ouvir uns “plocs” na protecção que faz de tecto. E agora “plocs” mais violentos. Algo me roça na perna. É áspero, grosso. Será uma corda? Já saiu. Hum! Algo voou. Mais “plocs” violentos e fortes na plataforma. Mosquitos aflitos e às dezenas ao redor da lâmpada. Mais “plocs”. O Pimenta vai tomar banho ao rio. Pergunta se queremos ir. Para uma meia-míope como eu , nadar no rio à noite não seria assim muito boa ideia: seria presa ainda mais fácil para as cobras, jacarés e outros bichos aquáticos peçonhentos, ou assim-assim de peçonhentos. E agora mais “plocs” no tecto. Parecem pedras a cair. O “Cachorrão” (que adora Ozie Osborne e é um dos técnicos de vacinação) levanta-se do colchão como se tivesse uma mola no corpo e de olhos esbugalhados. Faz um zoom in ao redor.

Vanessa, a “engraçadinha”, comenta (sempre tive uma inclinação por fazer piadas sem graça em momentos menos oportunos):

-“Deve ser algum bicho, com certeza! E pelo barulho não deve ser assim tão pequenito!”

Cachorrão diz que sim. E agarra num bicho, metade do tamanho da mão dele.

– “O que é? Faz mal?”, pergunta a engraçadinha.

-“Um gafanhoto”.

– “Com esse tamanho?”

– “É, bem-vinda à Amazónia. Aqui é tudo em grande escala”.

Começam a chegar mais e mais gafanhotos, desses assim bem grandinhos. Plocs e mais plocs, como se estivessem a chover pedras. Voam, saltam rápido; são castanho-escuros e parecem saídos de um documentário National Geographic (estamos no coração dos cenários favoritos do programa). São cada vez mais. Começo a agradecer por estar a dormir numa cabine e não na rede, cá fora. As raparigas que aqui vão dormir começam a entrar em pânico. Sacodem as redes e vemos dezenas de gafanhotos no ar como se estivessem a ensaiar algum número aéreo. Ouvimos cada vez mais “plocs” na plataforma. Não param de chegar gafanhotos. O Ivan, auxiliar de odontologia, da Secretaria Municipal de Saúde de Santarém diz que nunca viu nada assim. Brinca-se com a praga dos gafanhotos do Egipto. A única forma de eles não pararem no corpo (eles são inofensivos, a única coisa que causa impressão é o tamanho e a sensação de algum pousar em alguma parte do corpo, mais por asco do que por receio de ataque) é mantermo-nos em movimento.

Parece que a festa dos gafanhotos é aqui e fomos os últimos a saber. Já imaginamos a “gafanhotada”: pessoal o Abaré chega hoje: Eba! Eba! Encontramo-nos por lá! Tem rede e uns seres esquisitos da cidade, são grandes, mas inofensivos. É só chateá-los que eles ficam com nojo de nós e desaparecem”. Mais ou menos isso!

Alguém resolve apagar a luz para que eles parem de pousar por ali e ficamos sem ver nada. Cegueira total no meio dos gafanhotos. Maravilha! Vai-se tacteando os pilares até encontrar a escada, sem que nenhum gafanhoto amazónico (sem esta experiência nada disto teria piada) pouse. Prioridade: entrar na cabine. E uma nova surpresa: dezenas – assim tão juntinhos já seriam mais de cem, certamente – de mosquitos na sala de jantar. “Espero que a cabine não os tenha”, penso. Esquece Vanessa! De alguma maneira eles entram por alguma frincha que desconheço (a cabine onde durmo é a primeira depois da sala de jantar) e o quarto começa a ficar povoado por alguns deles, os mais espertos, que vieram para o fresquinho e terão pele europeia para degustar. Será que o repelente é suficiente? Melhor: será que funciona? Amanhã, nos sinais diários, saberão.

13/10| Dia 57 Um clássico nesta viagem: o bip das sete do telemóvel. Arrumar de novo as malas. Perdi a conta às vezes. Tomar o pequeno-almoço (e hoje pede-se ao pó de guaraná que dê aquela energia extra que tanto se diz ter). Reunião na sede do Projeto Saúde e Alegria. Vamos embarcar por 10 dias com o barco-hospital Abaré para conhecer o trabalho desta ONG com vinte anos de bagagem com as comunidades do Rio Tapajós: saúde, educação, ecoturismo de base comunitária, comunicação e capacitação, criada pelo médico Eugénio Scanavinno Neto, com sede em Santarém. A cozinheira Neguinha vem-se apresentar. As cozinheiras Val e dona Terezinha vêm depois. O barco atrasa. Saímos às 16 horas com rumo à comunidade de Samaúma. A Marcela, enfermeira-chefe do barco e responsável pela unidade de saúde, dá as boas-vindas aos 40 tripulantes. Diz os horários e as regras da casa: pequeno-almoço das 6h às 7h15; almoço das 11h às 12h30; jantar das 18h às 19h. A maioria que vai no barco são médicos e enfermeiros voluntários; depois grupo do circo: Adhara, palhaços Tucupi, Macaxeira e Pimenta; uma jornalista e um fotógrafo; marinheiros, cozinheiras. E no dia 20 o Luciano Huck vai aparecer a bordo para gravar um programa de TV.

Está um calor infernal e o António, do laboratório, descobriu a fonte de animação para os próximos dez dias: contar piada de portugueses. A Adhara do Circo tem no IPOD várias. Entre uma e outra António oferece uma geladinha para quebrar o gelo, e Cana, um dos marinheiros a bordo – agora a descansar na rede vermelha que pôs no último andar do Abaré – oferece-nos azeitonas e cubos de queijo acabados de cortar. Diz que o Rio Arapiuns, de onde veio a semana passada – o PSA também leva o projecto para as comunidades dessa região – também é “muito bonito”. “São águas tranquilas, com praias lindas”, descreve. Ele conhece-as como ninguém. É comandante, marinheiro, e segue quase todas as semanas a o leme da embarcação Netinho II da Secretaria Municipal de Saúde de Santarém. Aproveita-se para lavar roupa. Tenho quase toda para esfregar à mão. A esta altura máquina de lavar roupa é um luxo e pia para lavar a roupa: um mimo. Fico-me pelo mimo, pois o luxo é muito requisitado e impossível (bem o sentiria em dez dias) e mal sai roupa, entra roupa, numa maratona contínua. Esfrega-esfrega: as mãos ficariam esfoladas dos produtos; a lavandaria é uma sauna: o calor lá fora parece fresco: portanto outro mimo. À noite, no meio das redes, o Tucupi pega no batuque e canta. O vento é suave e embala as redes. O Abaré viaja pela Tapajós para acordar de madrugada em Samaúma.

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